Command Z


Poema burro número 5.

A poesia não está no poema,

poetas não entendem nada.

 

Uma noite, num boteco o neobeat cruza o neoparnasiano

e unidos organizam uma armadilha contra o neoconcreto,

que já havia se mancomunado com o neodrummondiano

para derrubar o neoárcade e o neo-romântico, aliás colega

do neo-surrealista, um pró neocabralino anti neopop que,

por sua vez, só quer saber de comer a musa do neobeat.

 

Do lado de fora, ali na esquina,

o banguela coça o olho do cu

e pincela na velha vitrine:

 

a poesia não está no poema,

poetas não valem nada.

Escrito por Zed Stein às 01h39
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Cear com os mortos.

Quem fica

Quem manda outra

Quem pede a conta

Quem passa a régua

Quem paga

Quem fica

Quem.



Escrito por Zed Stein às 23h56
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Depois de amanhã.

E aí vem essa estranheza

de estar o tempo todo fazendo coisas

criando ficções, eventos, relações entre os sentidos e o mundo

e subitamente perceber que essa ligação é absolutamente impossível

pois já foi para sempre perdida essa plenitude de pedra

digital

sustada, sem conexão alguma além do fato de ela ser pacificado minério –

porque, por enquanto, pedras rolando

depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será

a não ser, evidentemente

as latas de cerveja e as bitucas de cigarro amassadas

espojos de nossa guerra particular contra o tempo.



Escrito por Zed Stein às 14h24
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Outro domingo 3.

O céu claro sem nuvens
reflete as lembranças de uma semana bombástica e inócua
na TV duas louras rebolam a bunda no nariz de uma dupla de anões
a amiga afunda o pé no acelerador com elegância
um casal fode desesperado no closet brincando de roleta russa
enquanto as nuvens pintadas no muro do cemitério passam tão rápido

Um domingo de sol é uma espada a separar passado e futuro
abismo e abismo, esfíncter e esfinge, lama e mel
o dia divino, uma ponte pênsil entre zero e um
as mãos do cantor tremem quando ele serve cerveja
e ainda que o time da infância ganhe de três a zero
o sol afundará os olhos pra dentro

I gonna take you higher é o refrão que ritmo no duplo abismo
com os mesmos dedos com que se desbasta a carcaça de um caranguejo
porém nenhuma fome se extingue sob o verão meridiano
pois domingo é o mais cruel dos dias
as raízes do sol se entranham no húmus da memória
e o que sobrou da semana passada senão um brechó sem estilo
e o que será da próxima senão adiamentos de bandeiras negras

Que doce agrado seria o mar, vis à vis
sem cismar em sismos, buzinas nem sinos de igrejas bêbadas
ou celulares pedindo a atenção pro cheiro de carne queimada
o mais vil desse abismo é ser bis
o mergulho incessante sem sair do lugar
como um domingo insolente por indeciso
– o vento demais azul do final de tarde é só mais um truque.


Escrito por Zed Stein às 18h19
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Lua e marés.

Chega junto que eu vou perto

Enquanto uma nuvem dragão

Esfumaça a boca sobre a lua cheia

Através do espesso e do transparente

À minha frente o paraíso reluz

Em tuas águas interiores

E tua voz profunda

em túneis, treme.

Escrito por Zed Stein às 14h31
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Jardim suspenso.

De musa não se abusa,

eu já devia supor -

beber chá pela flor,

espiar lua no subsolo,

devagar com o andor,

que o abismo ali flora

no seio do precipício,

onde outro ritmo rui

cru, muito íntimo,

ou o amor se devora

em jazz de pétalas, mim

sem ti, sintaxe solta,

ar de sustos, clara fulô

sobe ao sul, sabe a sol,

sépalas se dissolvem

na pele, e o perfume,

na noite - a musa flutua

em sua retida luz.



Escrito por Zed Stein às 13h19
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BO aquático-botânico.

Um baleia de 10 metros encalhou

na praia do Jardim de Alá, Salvador

Jonas saiu de dentro do bicho

cercado por curiosos e a polícia

confuso, filou cigarro, falou de dilúvio

e pediu para falar com Maomé

o levaram aos Filhos de Gandhi

um jeito de purgar a loucura

se loucura precisa de purgante

Jonas achou a cidade mudada

sentiu falta de um cheiro

deu-lhe um cinco-minutos

pegou um táxi pro aeroporto

o chofer maldizia o tempo

num estalo, voou pra Louisiana

chegou junto com o furacão

a tempo de ouvir um dixieland

delirou ao ver a água subindo

perdido na jaca abriu os braços

sacou no mar Moby Dick

e voltou à língua de seu jardim.



Escrito por Zed Stein às 23h38
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Para onde foi a ponte.

Ninguém lembra se era ponte ou viaduto

se havia embaixo rio ou túnel ou avenida

sequer se sabe quem fez essa desfeita

língua de concreto sobre rarefeito abismo.

Para onde foi a ponte

para onde os automóveis

aonde partiam as pessoas

do outro lado nem nada

engenhando lugar nenhum.

Segue promissora e inconclusa

uma hipótese a céu aberto

onde gatos penduram seu cio

você, quinta-coluna de que deserto.

Se não me lembro ser ponte ou viaduto

resta a meu coração moer a brita

e elevar-se ao céu latindo à ponte

jardim de ossos

minha lua.



Escrito por Zed Stein às 19h59
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Dama da noite.

Sobe pelas paredes 10 metros de altura

não quer deitar raízes na terra

muitas terras estrangeiras nas folhas

buscando a linha de gravidade

a se engravidar de concreto

 

Você sai de manhã e nunca sabe se volta para casa

 

Produz efeitos afrodisíaco, anti-séptico e calmante

estreita a luz em capilares intrincados

criando variados ardores, humores, aromas

Prefere clima ameno ou úmido, com sol pleno

gosta de água, de solo rico em matéria orgânica

às vezes floresce no outono e no inverno

outras vezes na primavera e no verão

e então o sangue volta manso a se espraiar

 

Mas o sol ainda não a alcança

ela não quer deitar raízes na terra.



Escrito por Zed Stein às 22h50
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O cacto e o perfume.

Encontro um cacto em uma gaveta

Calmo, pronto, em estado de dragão.

Resolvi deixar a gaveta aberta

Logo floriram nele uns pontos vermelhos

Enquanto o furacão passa na TV

minha vodca se dissolvia junto às pedras de gelo

e eu jogo dados

buscando compor um símile.

A chuva não passaria

entanto eu e o cacto observássemos o céu sempre azul.

Os vidros da sala criariam estrias alvas

enquanto as músicas se escondessem em aleatórios envelopes.

Melhor morrer de vodca

que de perfume, me sorri o cacto – voz de acaso, de espinho.

Estaciona-se hoje pela hora da morte, informa a TV,

o preço de uma vaga é superior a um apartamento de luxo

e em minha casa forma-se uma névoa grossa,

que corto entre um e-mail e outro, com uma faca Ginsu.

Meus ouvidos captam trovões

o cacto me diz serem os pés de uma mulher no teto

nos intervalos entre seus cantos flamencos.

Descascava-se a parede, os dados rolavam, os ralos rugiam, as janelas brigavam

detrás de geladeira meus sapatos se incendiavam

e as flores vermelhas do cacto criariam mamilos frios tentáculos nas paredes.

As pessoas estão doentes de pressa

já eu vago na mesma gaveta

torcendo ansioso que meu mestre

nunca me encerre de novo lá dentro.



Escrito por Zed Stein às 09h20
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Ciclo das águas.

Acordo às cinco

as narinas sangram em seco

meu filho mijou na cama outra vez

mas não consigo acordá-lo

cambaleio à sala vazia

o dia é frio e preto ainda outra vez

preparo um café

em meu cacto surgem pontos vermelhos

devo banhá-lo

lhe ofereço água com uma esponja

e espio pela janela

um avião surge prateado entre nuvens

meu filho surge na sala

pergunta se ainda é noite

não sei o que responder

devo banhá-lo

antes disso ele diz não vou fazer outra vez

e ainda antes disso na janela gotas de chuva

o café está pronto.



Escrito por Zed Stein às 23h40
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