Outro domingo 3.
O céu claro sem nuvens reflete as lembranças de uma semana bombástica e inócua na TV duas louras rebolam a bunda no nariz de uma dupla de anões a amiga afunda o pé no acelerador com elegância um casal fode desesperado no closet brincando de roleta russa enquanto as nuvens pintadas no muro do cemitério passam tão rápido
Um domingo de sol é uma espada a separar passado e futuro abismo e abismo, esfíncter e esfinge, lama e mel o dia divino, uma ponte pênsil entre zero e um as mãos do cantor tremem quando ele serve cerveja e ainda que o time da infância ganhe de três a zero o sol afundará os olhos pra dentro
I gonna take you higher é o refrão que ritmo no duplo abismo com os mesmos dedos com que se desbasta a carcaça de um caranguejo porém nenhuma fome se extingue sob o verão meridiano pois domingo é o mais cruel dos dias as raízes do sol se entranham no húmus da memória e o que sobrou da semana passada senão um brechó sem estilo e o que será da próxima senão adiamentos de bandeiras negras
Que doce agrado seria o mar, vis à vis sem cismar em sismos, buzinas nem sinos de igrejas bêbadas ou celulares pedindo a atenção pro cheiro de carne queimada o mais vil desse abismo é ser bis o mergulho incessante sem sair do lugar como um domingo insolente por indeciso – o vento demais azul do final de tarde é só mais um truque.
Escrito por Zed Stein às 18h19
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